
Se nos abrissem a cabeça, como quem abre um ovo, em vez de sair gema e clara, caía lá de dentro um quadro do João Vaz de Carvalho.
Está ali na tela, tudo o que armazenamos no cérebro - que não é mais do que um apêndice sofisticado para guardar o que não nos cabe nos bolsos. Piões, um sol, baratas, aquela árvore do fundo do jardim da casa onde nascemos, os filhos, ou os pais, o aspirador, o avião, a cama, a almofada, o chefe e o martelo do chefe, aqueles botões de punho e dezenas de outras coisas que se misturam, sem que uma hierarquia racional as obrigue a respeitar o espaco e o tamanho que têm, de facto, na vida real.
Mas só o João é que tem coragem de retratar esse mundo tal como é. De chocar todos aqueles que morreriam de pânico se descobrissem que guardaram a avó mais pequenina do que aquela galinha, a quem davam milho a caminho da escola. Ou que o cão ocupa completamente a sua massa cinzenta, deixando apenas um espacinho para a Lua - e logo para a Lua, porque não para o Sol?
Pois é. Podemos promover o João a nosso psicanalista colectivo.
Pare à frente de cada quadro, sorria, ria abertamente, ou pestaneje perturbado. Repare como reage às cores, quais são os pormenores que fixa primeiro. Vai ver como, entre todos, encontra o seu......

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