Dos meus três filhos, o João foi sem dúvida aquele que mais habitou, e continua a habitar, o universo da literatura infantil.
O José Jorge Letria é um dos autores, que mais li ao João, e que hoje o João mais aprecia…
A parceria José Jorge e André Letria, tem um lugar de destaque na prateleira da sua biblioteca… Numa feira do livro de Lisboa, o João conheceu o seu autor preferido e deu a autografar alguns dos livros da sua colecção… O André também lá estava e deu largas à sua criatividade, quando autografou um dos seus livros com um linda ilustração…
Nós, os pais acabamos por nos tornar grandes leitores das obras dos mais pequenos…
José Jorge Letria gosta de brincar com as palavras…
é um Mestre da literatura infantil…
O ano passado convidei-o a estar presente na nossa Semana da Criança. Não pode aceitar o convite mas devolveu-nos um poema que hoje coloco numa prateleira da nossa biblioteca…
Obrigado José Jorge por fazer sonhar grandes e pequenos com a magia das suas palvaras...
O QUE EU PROMETI À MINHA ESCOLA
Eu ia para a escola, caixa grande de lápis e paus de giz,
na vizinhança da casa da minha avó,
na pacatez quase aldeã do Largo das Terras
seguindo o chilreio dos pássaros,
o carreiro do afã das formigas
e o rasto esvoaçante das joaninhas,
e gostava do cheiro dos cadernos
e da elegância altiva das letras e dos números.
A minha mãe esperava-me à saída,
temendo que eu me perdesse no caminho
e que comesse figos que faziam rebentar os lábios
e tiravam o apetite para o lanche.
Nesse tempo, eu aprendia as pequenas coisas,
ínfimas coisas de que o mundo é feito,
como se coleccionasse selos ou cromos.
O meu pai ainda estava vivo e a minha avó
tratava com pachos de azeite quente
as dores agudas da minha colite precoce.
Era coisa dos nervos, havia quem dissesse.
Eu caçava borboletas e apanhava folhas de amoreira
para fazer crescer os serpenteantes bichos da seda.
Nesse tempo, no tempo azul da escola
que era vizinha da casa da minha avó,
eu não tinha medo da noite nem da morte
e a felicidade era uma fresca rosa branca
no canteiro dos meus sonhos de menino.
Onde estão agora os meninos de bibe branco
que brincavam comigo à apanhada
na hora sempre breve do recreio ?
Alguns partiram já de vez, eu sei,
para o país de sombras onde não há infância.
Outros envelheceram como eu, devagar,
engordaram, desencantaram-se, tornaram-se avós.
Outros ainda, como eu, nunca se curaram
da mágica alegria dessa idade. Que mal tem ?
Um dia fui-me embora daquela escola,
não da minha terra, mas prometi
que havia de voltar mais tarde, num dia qualquer,
nem que fosse sob a forma de livro colorido,
para poder adormecer tranquilo
na prateleira alta das mais ternas lembranças.
José Jorge Letria
Dezembro de 2003